Etnias de Jaraguá do Sul - Xokleng
Alemã | Polonesa | Húngara | Negra | Italiana | Xokleng


Texto elaborado por Ignácio Arendt, com base nos escritos:

  1. Sílvio Coelho dos Santos Principalmente no livro: Índios e brancos no sul do Brasil - Ed. Movimento - 1987.

 

Retrato do cacique "Camrém" feito pelo pintor alemão F. Becker.
Foto de V. Dirksen, 1997.


INTRODUÇÃO

Quando se aborda o tema "Os índios da região Sul" tem se a impressão de que eles não existem mais. Porém ainda se tem notícias de pequenos grupos que se mantém arredios ao convívio com os brancos. Em Santa Catarina na Serra do Tabuleiro existem indícios reveladores da presença de um pequeno grupo de Xokleng. Também há um outro grupo arredio, sem detalhes sobre sua filiação tribal, nas florestas vizinhas às cataratas do Iguaçu. Além desses poucos mas significativos indígenas arredios, vivem aldeados em vários postos mantidos pela Funai (Fundação Nacional do Índio) nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul aproximadamente 7.869 silvícolas. (dados fornecidos em 1971). Se a taxa de crescimento entre os índios se manteve em 25% a cada dez anos, teríamos em 2002 em torno de 15.753 índios no Sul do Brasil. (esta é apenas uma projeção pois certamente o número é bem menor).


EM SANTA CATARINA

Aqui encontramos os índios Xokleng com aproximadamente 1.800 pessoas. (dados de 1970). Levando-se em conta o mesmo índice de crescimento (25% a cada dez anos) teríamos em 2002, uma projeção de 3.604 indígenas em Santa Catarina. Hoje as maiores reservas estão em Xanxerê e Ibirama, mas o número é bem reduzido.


A OCUPAÇÃO DESSAS TERRAS PELOS ÍNDIOS

Desde os primórdios no litoral predominavam os Tupi-Gurani, logo denominados de Carijó, devido às suas pinturas listradas e adereços. No interior, vales, encostas e planaltos viviam os Xokleng e os Kaingang, integrantes do grupo lingüístico Jê ou Tapuia. Porém, "não se pode pensar assim que as tribos tinham um território definido, nem muito menos que elas formassem um único grupo local". (Santos, 1970: 159), com a chegada dos portugueses os índios eram capturados e escravizados, mas os Kaingang e Xokleng foram preservados da aniquilação portuguesa devido às dificuldades de acesso no interior.


OS XOKLENG COMO GRUPO TRIBAL

Os índios Xokleng receberam vários nomes: Bugre, Botocudo, Aweikoma, Xokrén e Kaingang.

  • Bugre = é um tempo para designar qualquer índio no sentido de selvagem e inimigo.
  • Botocudo = devido ao enfeite labial uma espécie de botoque (tembetá) usado pelos adultos (homens).
  • Aweikoma = é uma deturpação da frase destinada a convidar uma mulher para cópula (relação sexual).
  • Xokrén = significa taipa de pedra, da mesma maneira que Xokleng.
  • Kaingang = designa homem, qualquer homem.

Porém o grupo Xokleng não tem auto-designação nem auto-identificação. Utilizam o termo "ânhele", que significa gente como quem diz: "lá vem gente" e outro termo "angoiká", que significa, pessoa. Lingüísticamente os Xokleng filiam-se aos Kaingang pois o Xokleng é um dialeto Kaingang e estes por sua vez se integram no grande grupo Jê ou Tapuia.

No século XIX haviam pelo menos 3 grupos de Xokleng, um deles vivia no centro do território catarinense ou seja, no médio e alto vale do Itajaí, o segundo ocupava as cabeceiras do rio Negro e parte do Paraná e o terceiro dominava o sul de SC até Porto Alegre no Rio Grande do Sul.


Observando o mapa abaixo podemos identificar claramente a região de ocupação pelos Xokleng
de acordo com a linha pontilhada que vai de Curitiba a Porto Alegre.

As várias iniciativas de colonização, justificadas pela necessidade de progresso para as Províncias do sul, significaram em grande parte o extermínio da população indígena dos Xokleng.


HISTÓRIA DO EXTERMÍNIO

O mesmo território não podia ser ocupado por dois povos, de um lado os imigrantes, do outro os legítimos donos, os índios Xokleng. Como prevalece a lei do mais forte, evidentemente o índio levou desvantagem na sua ingenuidade nativa e viu seu povo sendo exterminado em nome do progresso e da colonização.

Assim, a presença indígena nos campos de Lages e Guarapuava, levou o governo de D. João VI na carta régia de cindo de novembro de 1808, a determinar guerra aos indígenas. Mesmo assim até 1850 houve um período de calmaria no extermínio dos Xokleng até porque a colonização dos imigrantes europeus não teve continuidade. Conforme Perdigão Malheiros (1944: 180/181), entre 1850 e 1867, 26 núcleos coloniais foram instalados, sendo 4 no Paraná, 8 em Santa Catarina e 14 no Rio Grande do Sul. A partir dessa data os Xokleng (que eram nômades) tiveram seu território cada vez mais limitado sem poderem percorrer livremente as bordas do planalto em busca de alimentos pois ali já havia a presença de brancos. Outro fator de extermínio entre os Xokleng, era a luta contínua contra os Kaingang (tribo inimiga), na disputa de espaço para caça e coleta de alimentos. Por se verem acuados, os Xokleng começaram a atacar os brancos.


Alguns fatos cronológicos:

  • Em 1852, alguns Xokleng atacaram a casa do Dr. Blumenau, sendo que um dos índios foi atingido vindo a morrer no local.
  • Em 1855, voltaram a aparecer nas proximidades de Itoupava.
  • Ainda em 1855 nas proximidades de Itajaí, um grupo Xokleng atacou a família de Paulo Kellner, onde dois trabalhadores morreram flexados e o próprio Paulo foi ferido por duas flexas, porém conseguiu afugentá-los dando cindo ou seis tiros.
  • Então em 1856 o presidente da Província de Santa Catarina Dr. João José Coutinho fala à assembléia: "que a única maneira realmente aficaz seria obrigar estes assassinos e filhos de bárbaros deixarem a floresta localizando-os em lugares dos quais não pudessem fugir".
  • Em 1910 criou-se a nível nacional o SPI (Serviço de Proteção ao Índio).

Com isso oficializa-se o dito popular "índio somente é bom, morto", também foram empreendidas algumas tentativas de trazer padres missionários para pacificar, catequizar e aldear os Xokleng, mas nada disso obteve resultado.


AS TROPAS DE BUGREIROS

Compunham-se em regra de 8 a 15 homens, recrutados ou voluntários. Eram sempre bem armados. Seu objetivo era afugentar os índios das terras agora colonizandas pelos brancos. Quando eram chamados pelos colonos ou pelo governo para afugentamento dos selvagens, preparavam-se como para uma verdadeira guerra.

Geralmente seguiam as trilhas dos índios até acharem seus acampamentos. E, então atacavam os índios de madrugada, mantando a todos, exceto as crianças, que eram repartidas entre si juntamente com os objetos apreendidos.

O jornal do Comércio em Florianópolis de vinte e três de fevereiro de 1883, diz o seguinte: "Ao exmo Sr. coronel Vice presidente de Províncias, n° 41, comunicou pelo telegrafo ao delegado de S. Francisco, que os indígenas assaltaram os moradores do Jaraguá, nos dias 16 e 17 correntes (...). Em vista do pedido de providências, propõe esta chefia a S. Excia, se digne a autorizar o dispêndio de 300$000 rs aproximadamente no pagamento de vaqueiros que batam as matas e afugentem os selvícolas".

O mesmo jornal publicou no dia vinte e sete de fevereiro de 1883, ao delegado do Paraty pelo telégrafo, comunica para garantir a população do Jaraguá, que fica autorizada a despesa com batedores das matas. Ao delegado do Paraty telegrama recomendando que remeta as armas dos índios (...).


CARNIFICINA DOS BUGRES

Alguns relatos de jornal da época nos apresentam a idéia que todos faziam sobre a condição animalesca dos índios.

Do jornal Blumenau Zeitung: "Uma turma composta de 10 homens saíram à caça dos índios na Vargem Grande perto de Aquidabam, no dia 24 de abril". Depois de seguir a picada avistaram um rancho grande de 35 metros de comprimento e 10 de largura e mais alguns ranchos pequenos. Calculavam que no acampamento deviam estar perto de 230 índios, a maior parte mulheres e crianças(...). O assalto foi executado ao romper do dia. O pavor foi tanto que os bugres nem pensavam em defender-se. A única coisa que fizeram foi procurar se abrigar com o próprio corpo a vida das mulheres e crianças (...) Os inimigos não pouparam vida nenhuma. Foi tudo massacrado. Depois houve saque. Carregaram tudo o que valia a pena levar. O resto foi um incêndio geral.


O IMPACTO DAS ATROCIDADES

As muitas carnificinas dos indios, não deixaram de causar impacto sobre certos habitantes da província do país e mesmo de exterior. Os morticínios, a crueldade com que se apresentavam mulheres e crianças indígenas em vilas e cidades como troféus do sucesso das expedições, os relatos em jornais, chamaram à razão alguns espíritos lúcidos da época. Um autor catarinense, Vieira da Rosa em 1905, escreveu dizendo: "E falam de barbaridades, das depredações praticadas pelos selvícolas, censuram n'os e perseguem-n'os a tiros de fuzil, mas não se lembram que assim procedendo tornam-se mais ferozes que os próprios índios, que afinal, se atacam, é em represália das afrontas recebidas. (...) E que nome merecem esses caçadores de índios, que pena devem sofrer esses assassinos que em virtude de um mal entendido Christianismo, fazem de seus semelhantes abjetos de caça?".

Em 1877 o Governo Catarinense se manifesta a favor dos índios, preocupado com o problema. A diminuição paulatina do território ocupado pelos indígenas, criava um grande problema dificultando uma solução.

É óbvio que os indígenas estavam acostumados a períodos de penúria entre os meses de setembro a abril, pois de abril a agosto os pinheiros do planalto ofereciam alimento em abundância, que se constituía um dos principais alimentos desse período.

Os xokleng chegaram a dominar uma rudimentar técnica de conservação dos pinhões: abarrotavam balaios com pinhões e afundavam-nos em córregos próximos, voltando tempos depois para consumir o guardado.

Com a colonização do branco a competição pelo alimento aumentou e o espaço dos Xokleng diminuiu. Não há dúvida de que a fome levou os Xokleng a depredar a propriedade do civilizado.

É importante salientar que com o tempo os ataques não se davam somente para obter alimentos, mas também para se apoderarem dos instrumentos de trabalho dos brancos (facão, machado, foice, enxada e até armas de fogo).

De acordo com pesquisas de José Decke, 1967: 133 - Entre 1852 a 1914, ocorreram 61 assaltos no territórios do município de Blumenau onde morreram 40 brancos e 22 ficaram feridos. (O número de índios mortos não é citado pois isto caracterizaria genocído). Em 1914, ocorreu a pacificação indígena em Santa Catarina, como veremos adiante.


AS TENTATIVAS DE PACIFICAÇÃO NO BRASIL

Em 1910, teve sua origem o Serviço de Proteção aos Índios. Isto aconteceu devido a uma conferência pronunciada por Alberto Vojtech Fritch no XVI Congresso Internacional de Americanistas. Viena em 1908 Fric (como era conhecido em SC), demonstrou que a colonização no Sul do Brasil se processava sobre os cadáveres de centenas de índios, mortos sem compaixão pelos bugreiros. E, finalmente solicitou que o congresso (...) "protestasse contra esses atos de barbárie para que fosse tirada essa mancha da história da moderna conquista européia na América do Sul e dado um fim para sempre, à esta caçada humana". (Stauffer, 1960: 171).

No Brasil, esse depoimento repercutiu como uma bomba, dando a impressão de que a colonização estaria falida.

Mas para defender os colonizadores, Herman Von lhering publicou um texto no jornal "O Estado de São Paulo" de 12 de outubro de 1908, que dizia:

"Os actuais índios do Estado de São Paulo não representam um elemento de trabalho e progresso. Como também nos outros estados do Brasil, não se pode esperar trabalho sério e continuando dos índios civilizados e, como os Caingangs selvagens, são um empecilho para civilização das regiões do sertão que habitam, parece que não há outro meio, de que se possa lançar mão, senão o seu extermínio".

Esta nota no jornal, ao invés de ajudar os colonizadores, foi na realidade o principal motivo de muitas entidades particulares e o próprio governo se postarem a favor dos indígenas.

Para completar esse quadro, Candido Marciano da Silva Rodon, por ter convivido com os índios por mais de 20 anos, defendia os silvícolas em suas inúmeras conferências . Numa delas ele diz:

"Para compreender-se quanto é injusta a acusação levantada contra eles de serem indolentes e inúteis, basta lembrar que na zona ocupada pelos expedicionários de 1907, 1908 e 1909, não havia um estabelicimento de seringa, de caucho, de poaia(erva rasteira com raízes nodosos), no qual grande parte, e as vezes todos os trabalhos, não fossem feitos por índios. Desrespeitados em suas pessoas e em suas famílias; perseguidos, caluniados, eles vivem em situação misérima: se aceitam a sociedade do branco ficam reduzidos à pior das escravidões; (...) se embrenham nas matas, são acossados e exterminados a ferro e fogo. Onde está a nossa justiça de povo culto e civilizado; onde está o nosso sentimento de equidade e de gente crescida à sombra das admiráveis instituições romanas; onde está a nossa bondade de homens formados sob os influxos da cavalaria e do catolicismo, para assim chegarmos a essa montruosa iniqüdade de só negarmos o direito à vida e à propriedade, em terras do Brasil, aos brasileiros de mais lídima naturalidade?!!!" (Rondon, 1946: 101/102).

Tudo isso levou o Governo Brasileiro a criar um Organismo Oficial, destinado a tratar dos assuntos pertinentes aos silvícolas.

Aos 7 de setembro de 1910, instalava-se oficialmente o "Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais".

Esta foi na realidade uma vitória para um grupo de intelectuais que, sob a influencia do positivismo, defendeu a tese de que o indígena devia ser protegido e assistido em suas necessidades pelo Estado.


TENTATIVAS DE PACIFICAÇÃO EM SANTA CATARINA

No jornal Novidades de dez de março de 1907 é citada a criação de uma "Liga Patriótica para a Catequese dos Silvícolas".

Numa das partes o Jornal cita: "O que a Liga ardentemente deseja é que se estabeleça uma corrente de simpatia em favor do pobre silvícola brasileiro; em vez de acossá-lo por toda a parte e obrigá-lo a passar uma vida de miséria no interior das matas, se lhes proporcione meios de catequese e civilização".

Albert Fritch chamado "pacificador de indígenas de Santa Catarina", não fez jus ao título pois por ocasião de sua ida a Blumenau, o tratamento que recebeu, foi o menos acolhedor possível.

As duras críticas feitas por colonos alemães e outros empecilhos, fizeram com que a Liga Patriótica aparentemente deixasse de atuar. Nas áreas coloniais, ninguém aceitava os esforços do Serviço de Proteção aos Índios. Para todos, quem merecia proteção era o colono. A exigência dos colonos era a seguinte: "Em terreno blumenauense não queremos aldeamento de índios". Ainda mais que por essa época, os Xokleng atacaram em Rio dos Pinheiros a família de Adam Pannoch, colono polonês, matando sua mulher, dois filhos e ferindo um terceiro. Nas notas do arquivo de Vieira da Rosa consta: "No Pinheiros, também andavam bugres suspeitos, que penetravam nas casas durante a noite e bebiam o leite deixado pelos moradores que, com o pânico que havia, refugiavam-se todos numa só casa, abandonando suas propriedades aos gatunos". (...) Com isso o autor quer dizer que havia os falsos índios que se aproveitavam da situação...

Em meados de 1912 a Diretoria geral do SPI (Serviço de Proteção ao Índio) reconhece que a situação no Sul do país exigia novas medidas. O Serviço foi reorganizado e a chefia ficou por conta do inspetor do Rio Grande do Sul, Raul Abbot, enquanto que Vieira Rosa foi promovida a capitão.

Raul Abbot deslocou-se para o Vale do Itajaí e instalou sua base de operações na colônia Hansa (hoje Ibirama).

Abbot conseguiu da Sociedade Hanseatica de Colonização a desistência de uma área de 30 000 hectres de sua concessão, para localização dos indígenas que iriam ser pacificados.

Foram então trazidos 30 índios Kaingang do Paraná, habituados ao convívio dos civilizados, para colaborarem nos trabalhos de atração. Apesar de todos os esforços, o Serviço de Proteção aos Índios e especialmente os funcionários que atuavam na área, sofriam uma violenta companha de desmoralização pela falta de sucesso no empreendimento de catequizar os índios. "Enquanto isso os Xoleng continuavam com seus ataques em vários locais do Alto Vale do Itajaí , e de 1910 a novembro de 1913 , mataram oito pessoas, feriram outras nove e mataram em torno de 600 a 700 animais". (Conforme o artigo do Jornal Urwaldsbote, editado em Blumenau por Eugenio Fouquet em 09/11/1913). Obs. Estes números são passiveis de questionamento....

Diante de todos esses fatos o SPI em SC quase foi desarticulado pois Raul Abbot e seus principais auxiliares pediram demissão. Ficaram em Hansa, no Plate (Ibirama) apenas três jovens funcionários entre os quais Eduardo de Lima e Silva Hoerhan.


EDUARDO DE LIMA E SILVA HOERHAN E A PACIFICAÇÃO NO ITAJAÍ

O jornal de Blumenau Zeitung, conforme Deeke conta que no dia vinte e um de setembro de 1914, Eduardo Hoerhan e seus companheiros tinham se ausentado da colônia do Plate (Ibirama) para buscar mantimentos, tendo nesse ínterim, um grupo de Xokleng atacado o acapamento. Eduardo Hoerhan retornou imediatamente com um grupo de trabalhadores para se encontrar com os índios. Eduardo como havia aprendido o idioma dos Kaingang conseguiu trocar com os Xokleng algumas palavras conhecidas chegando a um razoável entendimento. Como a atitude dos Xokleng permanecesse hostil, Eduardo jogou fora as armas que tinha consigo em direção aos índios. Percebendo a atitude pacifica de Eduardo os índios também jogaram suas armas no chão e aceitaram os presentes oferecido pelos brancos, mas sempre desconficados de suas intenções.

A partir desse dia vinte e um se setembro de 1914, o "Dia da Pacificação", os contatos continuaram e os indígenas queriam sempre mais presentes mas os recursos eram poucos e o SPI não mais auxiliava nos trabalhos de pacificação. Diante das dificuldades, Eduardo abandonou os trabalhos indo para a colônia de Hammonia (Ibirama). No entanto os Xokleng exigiram a volta de Hoerhan chamando-o pelo nome de Katanghára. Então a diretoria da colônia garantiu alguns recursos imediatos com promessas de interceder junto ao governo federal e estadual. Hoerhan regressou ao posto reiniciando o contato com os grupos Xokleng.

Em 1915, o governo federal reconheceu o trabalho de Hoerhan regularizando a remessa de recursos que eram investidos em alimentos e ferramentas e ranchos para o abrigo de índios.

Nos primeiros anos Hoerhan conseguiu atrair para o posto do Plante (Ibirama) em torno de 400 índios.


TENTATIVAS DE PACIFICAÇÃO EM OUTRAS REGIÕES DE SANTA CATARINA

Enquanto isso foram feitas tentativas de pacificação dos Xokleng do norte catarinense na região de Mafra/Rio Negro pelo funcionário do SPI, Fioravante Esperança sem muito sucesso.

Somente em 1918 às margens do Rio dos Pardos (Matos Costa), João Gomes Pereira (conhecido como João Serrano) conseguiu atrair 50 indígenas, segundo fontes locais.

Outro grupo de Xokleng tentava sobreviver nas florestas das Montanhas de Urubici e São Joaquim. Mas a pressão dos civilizados e dos próprios bugreiros se fazia sentir cada vez mais e os indígenas viam seu território diminuindo cada vez mais sofrendo com isso graves períodos de penúria alimentar.


A PACIFICAÇÃO E SUAS CONSEQÜÊNCIAS

Na realidade o SPI, foi um organismo para atender os interesses da sociedade colonizadora nacional e não dos indígenas. Pacificados, os índios deixaram de representar um perigo para os civilizados. O problema, agora, "era esperar que os índios se habituassem com a civilização". Tanto Candido Rodon como outros responsáveis pelo SPI perceberam essa manipulação muito mais tarde quando notaram que o governo não mais destinava recursos para os trabalhos com os grupos pacificados.

A pacificação trouxe muitos aspectos negativos:

  • Epidemias de Gripe, varíola, juntamente com a desinteria;
  • A miscigenação colocou os Xokleng frente a doenças venéreas;
  • Restrigiu o espaço de caça;
  • Destruiu a cultura: seus costumes e tradições;

Sobre isso um índio Xokleng fez o seguinte depoimento a Eduardo por volta de 1918: "nos fizeste descer para junto de ti, só para nos matar com tantas doenças. Antigamente nos matavam à bala, mas nós também matávamos. Agora tu nos matas como Kozorro (gripe), sarampo, malária, coqueluche e outras doenças. Os Zug (brancos) são culpados da desgraça em que caímos".
Todas essas dificuldades fizeram com que Hoerhan decidisse manter o grupo de Xokleng do seu posto, em regime de "contato controlado", evitando a presença de estranhos no posto e impedindo a saída dos índios. Mas isso pouco adiantou e o próprio Hoerhan afirmou: "Se pudesse prever que iria vê-los morrer tão miseravelmente, os teria deixado na mata, onde ao menos morriam mais felizes e defendendo-se de armas na mão contra os bugreiros que os assaltavam".


A PERDA DE CULTURA E SEUS COSTUMES

Com a pacificação os Xokleng foram perdendo rapidamente a sua cultura, esquecendo seus hábitos e adquirindo vícios dos brancos sobretudo o consumo de cachaça, fumo, açúcar e outros alimentos dos colonizadores.
Para a mulher Xokleng o parto era um ato fisiológico de maior naturalidade, mas com a pacificação aprendeu a sofrer as dores do parto e suas consequências.

As jovens da tribo mantinham relações sexuais livremente muito antes da primeira menstruação sem no entanto ficarem grávidas durante a adolescência. Com a pacificação as relações sexuais livres continuavam, no entanto meninas de doze, treze anos engravidavam e tinham filhos, para escândalo da tribo. Enquanto os Xokleng eram nômades a mulher engravidava quando seu último filho já tinha três ou quatro anos. Com a pacificação o intervalo se abreviou para dois e até mesmo um ano. As relações sexuais livres facilitavam a miscigenação e em decorrência o grupo inteiro praticamente foi prostituído, disseminando-se entre eles toda sorte de doenças venéreas, antes inexistentes entre os Xokleng.
Os Xokleng incineravam seus mortos, colocando as cinzas em um buraco redondo sobre o qual era construída uma choupana. Com a pacificação este costume desapareceu.

A maior festa dos Xokleng acontecia por ocasião da furação dos lábios dos meninos, onde os vários grupos de índios se reuniam comemorando com danças, e muita bebida feita a base de mel, água e xaxim. Este ritual também desapareceu com o aldeamento dos índios.

Todas essa "aculturação" dizimou o Grupo de Xokleng do posto do Plate (Ibirama) que segundo Hoerhan em 1914 era de aproximadamente 400 indivíduos e que 1932 havia no posto apenas 106 indivíduos; o mesmo aconteceu com o grupo de Xokleng do Rio dos Pardos (Matos Costa).

A partir da pacificação não era mais possível impedir que os silvícolas entrassem em contato com o mundo civilizado e com o sistema econômico peculiar.

Porém os Xokleng tinham dificuldade de assimilar o modelo econômico branco que dava assistência ao individuo pois para eles o individualismo nunca existiu. Os Xokleng tinham como modelo sua economia no trabalho do grupo. Era o "grupo de caça", a solidariedade grupal. O produto da caça não era do caçador, mas do grupo. Os bens que circulavam no grupo eram de propriedade coletiva.

Como não havia recursos para o preservação da Cultura Xokleng, a integração dos indígenas com a sociedade tornou-se quase plena, e o prórpio Eduardo Hoerhan foi chamado de mentiroso e ladrão pelos próprios índios, os quais diziam que ele era o culpado de tudo de mal que ocorria no posto indígena. Todos esses entraves e sobretudo a falta de apoio do SPI, frustraram muito o grande e verdadeiro pacificador dos Xokleng de Santa Catarina.

Em 1954, após 40 anos de atividade dedicada junto aos Xokleng do posto do Plate (Ibirama), Hoerhan foi destituído de suas funções por motivos não bem esclarecidos.


A CERÂMICA E O ARTESANATO

O artesanato cerâmico era desenvolvido pelas mulheres que fabricavam muitas vasilhas
e pequenos potes de barro para o uso do dia-a-dia.

 

Também as mulheres eram exímias tecelãs utilizando fibras de urtiga para tecerem suas roupas de inverno.

Os Xokleng fabricavam cestos e balaios de bambu e cipó para carregarem seus pertences bem como a comida, "o milho e a mandioca".

Seus arcos, flexas, lanças e bordunas eram feitos com pontas de bambu ou ossos bem afiados, contendo geralmente veneno nas pontas para matar a vítima mais rapidamente. Quando os Xokleng entraram em contato com o branco substituíram as pontas de bambu das flexas e lanças por pontas de ferro. Também começaram a utilizar instrumentos cortantes apreendidos dos brancos como: facão, machado, foice, facas etc...
 


AS CHOUPANAS

Suas choupanas eram rústicas, geralmente feitas como alguns paus trançados e amarrados com cipós para dar uma sustenção a uma rude cobertura de folhas. A estas choupanas , chamadas de paraventos, eram provisórias devido ao seu nomadismo. Eram construídoas para se protegerem da chuva e do frio. Em tempos de calor os Xokleng dormiam geralmente debaixo de árvores, ao relento...
 

 

A PRESENÇA INDÍGENA NO VALE DO RIO ITAPOCU - (Texto e pesquisa realizada por Egon L. Jagnow)

A presença indígena no vale do Rio Itapocu é evidente. Existem relatos orais e documentos oficiais do contato de indígenas com o homem branco que colonizou a região. Registram-se também achados de material lítico em várias regiões do vale. Convém salientar que a região do vale, aqui referida, abrange os territórios dos atuais municípios de Guaramirim, Schroeder, Jaraguá do Sul ,Corupá e Massaranduba.

Possivelmente, por volta do Século XVII, os xokleng ocuparam a região. Foram estes os indígenas encontrados por ocasião da colonização do vale.

Convém lembrar que “não se pode pensar assim que as tribos tinham um território definido, nem muito menos que elas formassem um único grupo local.” (Santos, 1970: 159). Ou seja, muitas vezes, diferentes povos indígenas podem ter utilizado o mesmo espaço geográfico quase que de forma simultânea, devido ao seu nomadismo Outra prova é o material lítico encontrado na região: pontas de flecha, machadinhas e mãos-de-pilão. Infelizmente, não se teve o devido cuidado para que pudesse servir de prova científica mais consistente. O material foi coletado por pessoas, em suas propriedades, quando do preparo da terra ou outras ocasiões. Mesmo não tendo havido todo este cuidado na coleta deste material, ele não é destituído de valor. Supõe-se que seja de origem tupi-guarani pelas características que apresenta e porque os tapuias costumavam usar, preferencialmente, ossos para fazer seus objetos cortantes e as pontas de flecha. Emílio da Silva conta que havia um foragido, residindo na barra do Rio Jaraguá que negociava com os indígenas, pendurando em uma figueira botijas de melado e fumo em corda, sendo que os silvícolas retribuíam com pedaços de caça. (SILVA, 1975: 16).

Emílio da Silva, referindo-se ao mesmo fato relata: “(Maria José Mariano), no ataque dos índios ao engenho de seu marido (Marcos Filadelfo Mariano), em 1883, saiu gravemente ferida, recuperando-se todavia. Situava-se dito engenho no lote 41 (...) rua Epitácio Pessoa”. (SILVA, 1975: 77).

Em 16 de agosto de 1911, o agente consular austro-húngaro de Joinville, em carta ao Governador do Estado de Santa Catarina, informa: “Tendo-se dado no dia 14 do mez de Maio do corrente ano um assalto de indios no districto de Jaraguá (Garibaldi), no qual foram completamente destruídos os bens dos colonos húngaros Carlos Burger e Daniel Horongoso (...). Pois já há oito dias este consulado recebeu novas notícias que os índios outra vez ameaçaram os colonos n’aquelle districto”. (Extraído do original que se encontra no Arquivo Público do Estado).

Conta-se também que os moradores do Rio Ano Bom (Corupá), para terem sossego em suas caçadas, deviam dar a primeira caça abatida aos índios que por ali perambulavam, dizendo: “Esta é para os compadres”. Caso não o fizessem, os silvícolas espantavam os cães dos caçadores. (Depoimento de Wigando Pscheidt).

Sobre esta sua presença nômade no vale, em 1877, o Presidente da Província Alfredo d’Escragnone Taunay, assim se manifestou: “grande quantidade deles pertencentes às tribos dos Botocudos, Coroados e Puris, vagam ainda pelas florestas das serras de Lages (...). Parecem freqüentar mais habitualmente a serra do Trombudo, o Tayó, o vale do Itapocu (...). De certa época para cá, recomeçaram com suas tentativas de agressão, ou por espírito de vingança, ou por se verem expelidos de regiões, que pela abundância de caça, como no Itapocu, lhes proporcionavam cômoda existência”. (Citado por Stulzer, 1973: 15).


O FUTURO DOS XOKLENG

 


Os Xokleng, continuaram a existir identificados como uma minoria étnica em Santa Catarina. Mesmo aldeados em reservas, continuarão com suas características particulares sempre vivas, pois continuarão sendo índios apesar de todo processo de civilização. Aliás, deixar de ser índio para ser um pobre ou miserável civilizado é um troca pouco atrativa.

Por outro lado, os índios não podem voltar a depender de sua cultura tradicional, pois essa não mais atende às suas necessidades.

Apesar de tudo os Xokleng realizaram o milagre de sobreviver, resitindo à penetração dos brancos, vencendo as campanhas dos bugreiros, as epidemias e às tentativas de aculturamento forçado ..

Espera-se que a Funai (Fundação Nacional do Índio), redirecione seus objetivos para os índios Xokleng de SC estabelecidos em Ibirama (Reserva do Plate- hoje José Boiteux); Rio dos Pardos (Matos Costa) e os da Serra do Taboleiro (bastante arredios), e permita sobretudo que eles tenham o direito de continuar a nascer, viver e morrer dignamente, como seres humanos e como índios, e que sua cultura étnica não fique perdida para sempre ou restrita aos livros históricos na maioria das vezes mal contada.


ALIMENTAÇÃO DOS XOKLENG

 


"A araucária ergue-se a mais de trinta metros. Seu fruto, abundante na época mais fria, alimentava toda uma fauna de aves e macacos, caititus e queixadas, e servia de sustento aos Xocrén (...)". Para os Xokleng sempre foi a maior dávida da natureza. O fruto era abundante entre os meses de abril a agosto sendo que os Xokleng aprenderam a conservar o pinhão enchendo balaios e colocando-os em riachos próximos consumindo os frutos tempos depois.
 

Os Xokleng praticavam alguma agricultura, enquanto habitavam o planalto e as terras das araucárias, plantando sobretudo milho e aipim.

Com a colonização, foram empurrados para os vales, florestas e encostas. Como eram incapazes de explorar os recursos existentes nos rios e riachos pois não conseguiam sequer superar as correntezas das águas mais volumosas e nem desenvolver uma agricultura de subsistência na floresta, tornaram-se nômades e fizeram da caça e da coleta a base de seu regime de vida.


A PERDA DE CULTURA

Com a pacificação os Xokleng foram perdendo rapidamente a sua cultura, esquecendo seus hábitos e adquirindo vícios dos brancos sobretudo o consumo de cachaça, fumo, açúcar e outros alimentos dos colonizadores.

Para a mulher Xokleng o parto era um ato fisiológico de maior naturalidade, mas com a pacificação aprendeu a sofrer as dores do parto e suas conseqüências.

As jovens da tribo mantinham relações sexuais livremente muito antes da primeira menstruação sem no entanto ficarem grávidas durante a adolescência. Com a pacificação as relações sexuais livres continuavam, no entanto meninas de doze, treze anos engravidavam e tinham filhos, para escândalo da tribo.

Enquanto os Xokleng eram nômades a mulher engravidava quando seu último filho já tinha três ou quatro anos. Com a pacificação o intervalo se abreviou para dois e até mesmo um ano.

As relações sexuais livres facilitavam a miscigenação e em decorrência o grupo inteiro praticamente foi prostituído, disseminando-se entre eles toda sorte de doenças venéreas, antes inexistentes entre os Xokleng.

Os Xokleng incineravam seus mortos, colocando as cinzas em um buraco redondo sobre o qual era construída uma choupana. Com a pacificação este costume desapareceu.

A maior festa dos Xokleng acontecia por ocasião da furação dos lábios dos meninos, onde os vários grupos de índios se reuniam comemorando com danças, e muita bebida feita a base de mel, água e xaxim. Este ritual também desapareceu com o aldeamento dos índios.

Todas essa "aculturação" dizimou o Grupo de Xokleng do posto do Plate (Ibirama) que segundo Hoerhan em 1914 era de aproximadamente 400 indivíduos e que 1932 havia no posto apenas 106 indivíduos; o mesmo aconteceu com o grupo de Xokleng do Rio dos Pardos (Matos Costa).

A partir da pacificação não era mais possível impedir que os silvícolas entrassem em contato com o mundo civilizado e com o sistema econômico peculiar.

Porém os Xokleng tinham dificuldade de assimilar o modelo econômico branco que dava assistência ao individuo pois para eles o individualismo nunca existiu. Os Xokleng tinham como modelo sua economia no trabalho do grupo. Era o "grupo de caça", a solidariedade grupal. O produto da caça não era do caçador, mas do grupo. Os bens que circulavam no grupo de propriedade coletiva.

Como não havia recursos para o preservação da Cultura Xokleng, a integração dos indígenas com a sociedade tornou-se quase plena e o próprio Eduardo Hoerhan foi chamado de mentiroso e ladrão pelos próprios índios, os quais diziam que ele era o culpado de tudo de mal que ocorria no posto indígena.

Todos esses entraves e sobretudo a falta de apoio do SPI frustraram muito o grande e verdadeiro pacificador dos Xokleng de Santa Catarina.

Em 1954, após 40 anos de atividade dedicada junto aos xokleng do posto do Plate, Hoerhan foi destituído de suas funções por motivos não bem esclarecidos.


          
Município de Jaraguá do Sul - SC - CNPJ: 83.102.459/0001-23 - Rua Walter Marquardt, 1111 - Barra do Rio Molha - 89259-565 - Caixa Postal 421 - Fone: (047) 2106-8000